Olá pessoal, boa tarde!
No dia 21/08, na XVIII Jornada de Estudos Antigos e Medievais, o Profº. Drº. Mário Jorge da
Motta Bastos (UFF) ministrará o minicurso intitulado Epistemologia e
Teoria da História, das 16:00 as 17:30 h, no anfiteatro do Bloco I12 da UEM -
para fazer inscrição no minicurso, acessem o site do evento https://gtseam.wixsite.com/xviiijeam
O ensalamento das comunicações e pôsteres, que acontecerão no dia
22/08, das 15:30 às 17:30 h, também está disponível no site do evento.
quinta-feira, 15 de agosto de 2019
quinta-feira, 25 de julho de 2019
“Chamava muy devotamente com vozes”: as narrativas de milagres de Santo Antônio.
O Drº. Bruno Soares Miranda, do Grupo de Estudos Medievais Portugueses, da Universidade de São Paulo, irá compor a mesa temática Ensino e Literatura da Idade Média, na XVIII Jornada de Estudos Antigos e Medievais, no dia 21/08. Sua apresentação tem o título: “Chamava muy devotamente com vozes”: as narrativas de milagres de Santo Antônio.
Resumo: Na Crônica da Ordem dos Frades Menores encontramos diversos relatos de vida e de milagres de alguns membros da Ordem Franciscana. Nestes relatos, um personagem se destaca: Santo Antônio de Pádua/ Lisboa. Com narrativas de milagres de tipologias diversas, algumas ocorridas ainda com o santo vivo, possuem a Itália como principal local de ocorrência, porém, encontramos alguns milagres ocorridos em Portugal, terra natal do doutor evangélico. A descrição dos milagres mostram fatos do cotidiano medieval, com personagens de diversos estratos sociais e profissões e que revelam facetas múltiplas da população medieval, como problemas de saúde, angústias, medos, dificuldades e desejos, além de aspectos da espiritualidade. O objetivo desta comunicação é analisar estes relatos de milagres, como eles moldaram a imagem de Santo Antônio e como serviram de elementos de difusão da devoção ao santo franciscano em terras portuguesas assim como forma de propaganda política e catequética da Ordem fundada por São Francisco de Assis.
Palavras-chave: milagres; narrativas; Santo Antonio.
http://lattes.cnpq.br/3147675739841340
A Profª. Drª. Angelita Marques Visalli da Universidade Estadual de Londrina, irá compor a mesa temática Educação e História na Idade Média, no dia 21/08.
http://lattes.cnpq.br/2542700073713344
http://lattes.cnpq.br/2542700073713344
"QUINTILIANO E PLÍNIO, O JOVEM: A PRESENÇA DA EDUCAÇÃO FILOSÓFICA E RETÓRICA NAS CARTAS"
A
Profª. Drª. Andrea Lúcia Dorini de Oliveira Carvalho Rossi, da
Universidade Estadual Paulista, irá compor a mesa temática
Representações da Paideia Greco Romana na História da Educação, na XVIII Jornada de Estudos Antigos e Medievais, no dia
22/08. Sua apresentação tem o título: "QUINTILIANO E PLÍNIO, O JOVEM: A
PRESENÇA DA EDUCAÇÃO FILOSÓFICA E RETÓRICA NAS CARTAS"
Resumo: Esta apresentação tem como objetivo analisar a obra de Plínio, o Jovem, no intuito de identificar o processo educacional de que foi objeto. Nas cartas II.14 e VI.6, Plínio faz referência direta ao seu preceptor, Quintiliano, e seis ensinamentos da arte da retórica e como conquistar o seu público. Também é possível identificar os fundamentos sobre retórica presentes nas Cartas de Plínio, o Jovem quando de suas missivas encaminhadas a Tácito e outros interlocutores. Desta forma, pretende-se abordar algumas destas premissas teóricas e filosóficas como princípio de análise das Cartas do senador romano.
http://lattes.cnpq.br/3373456558089112
Resumo: Esta apresentação tem como objetivo analisar a obra de Plínio, o Jovem, no intuito de identificar o processo educacional de que foi objeto. Nas cartas II.14 e VI.6, Plínio faz referência direta ao seu preceptor, Quintiliano, e seis ensinamentos da arte da retórica e como conquistar o seu público. Também é possível identificar os fundamentos sobre retórica presentes nas Cartas de Plínio, o Jovem quando de suas missivas encaminhadas a Tácito e outros interlocutores. Desta forma, pretende-se abordar algumas destas premissas teóricas e filosóficas como princípio de análise das Cartas do senador romano.
http://lattes.cnpq.br/3373456558089112
"A REPRESENTAÇÃO DO MEDO NA BAIXA IDADE MÉDIA: UM ESTUDO DO INFERNO DE HIERONYMUS BOSCH"
A Profª. Drª. Meire Lóde
da Universidade Estadual do Paraná irá proferir a palestra intitulada
"A REPRESENTAÇÃO DO MEDO NA BAIXA IDADE MÉDIA: UM ESTUDO DO INFERNO DE
HIERONYMUS BOSCH" no dia 21/08.
Resumo: O objetivo nesse texto é analisar a cena do inferno presente no Juízo Final do holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), pintor que ficou conhecido como um grande criador de monstros. Nosso propósito é verificar como as figuras que aterrorizavam os medievais foram representadas na arte da Baixa Idade Média. A opção pelas fontes imagéticas justifica-se por considerarmos que as imagens – em especial, as consideradas na contemporaneidade como arte – registraram a subjetividade humana presente nas mudanças históricas expressando diferentes olhares sobre o mundo, os homens e o viver em sociedade. A investigação se desenvolve por meio do pressuposto de que as imagens dos castigos eternos atuaram (atuam) no imaginário de forma com que os homens se identificassem com os condenados, tornando as pinturas do inferno um conteúdo didático regulador do comportamento humano na Idade Média. Questão que se intensifica com a representação dos responsáveis pelo cumprimento da sentença de Cristo aos condenados: os demônios que proporcionam a danação eternam as almas pecadoras. Assim, refletir sobre como os homens conceberam o inferno, os seres infernais e os castigos aplicados aos que se desviaram do ‘reto caminho’ torna-se um importante conhecimento para a História da Educação por nos permitir verificar como o medo assume a posição de elemento educativo e, por conseguinte, normatizador social.
Palavras-chaves: medo; Baixa Idade Média; inferno; Bosch.
http://lattes.cnpq.br/7589708901294641
Resumo: O objetivo nesse texto é analisar a cena do inferno presente no Juízo Final do holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), pintor que ficou conhecido como um grande criador de monstros. Nosso propósito é verificar como as figuras que aterrorizavam os medievais foram representadas na arte da Baixa Idade Média. A opção pelas fontes imagéticas justifica-se por considerarmos que as imagens – em especial, as consideradas na contemporaneidade como arte – registraram a subjetividade humana presente nas mudanças históricas expressando diferentes olhares sobre o mundo, os homens e o viver em sociedade. A investigação se desenvolve por meio do pressuposto de que as imagens dos castigos eternos atuaram (atuam) no imaginário de forma com que os homens se identificassem com os condenados, tornando as pinturas do inferno um conteúdo didático regulador do comportamento humano na Idade Média. Questão que se intensifica com a representação dos responsáveis pelo cumprimento da sentença de Cristo aos condenados: os demônios que proporcionam a danação eternam as almas pecadoras. Assim, refletir sobre como os homens conceberam o inferno, os seres infernais e os castigos aplicados aos que se desviaram do ‘reto caminho’ torna-se um importante conhecimento para a História da Educação por nos permitir verificar como o medo assume a posição de elemento educativo e, por conseguinte, normatizador social.
Palavras-chaves: medo; Baixa Idade Média; inferno; Bosch.
http://lattes.cnpq.br/7589708901294641
domingo, 14 de julho de 2019
"FILOSOFIA E EDUCAÇÃO NO FINAL DO SÉCULO XIII E INÍCIO DO SÉCULO XIV: BOAVENTURA DE BAGNOREGIO E RAIMUNDO LÚLIO"
A Profª. Drª. Conceição Solange Bution Perin, da Universidade Estadual do Paraná, irá compor a mesa temática: Educação, Filosofia e História na Idade Média, no dia 20/08/2019. Sua apresentação tem o título: "FILOSOFIA E EDUCAÇÃO NO FINAL DO SÉCULO XIII E INÍCIO DO SÉCULO XIV: BOAVENTURA DE BAGNOREGIO E RAIMUNDO LÚLIO".
RESUMO:O estudo analisa a educação e a filosofia na Idade Média, especificamente no final do século XIII e início do século XIV. O objetivo é o de compreender o papel que essas duas ciências tiveram em um período de transição, no qual o homem sofreu alterações intelectual e educacional para manter e suprir as exigências da época. Abordaremos alguns questionamentos e ensinamentos apresentados por dois autores do período e que apresentaram projetos de reorganização da sociedade por meio do comportamento educacional e do conhecimento filosófico: são eles Boaventura de Bagnoregio (1217-1274) e Raimundo Lúlio (1232-1316). A fundamentação teórica perpassa pela história pelo conceito de longa duração. Compreendemos que a formação humana não se explica por um determinado momento histórico, mas sim, pelo entendimento do passado e do presente, revelando que as questões educacionais e reflexivas se diferenciam em cada contexto, porém, são essenciais em todos os momentos históricos.
Palavras-chave: Filosofia, Educação, Idade Média, Boaventura de Bagnoregio, Raimundo Lúlio.
"A ESTUDIOSIDADE E O FIM ÚLTIMO DO SER HUMANO EM HUGO DE SÃO VÍTOR E SANTO TOMÁS DE AQUINO"
O Profº. Drº. Sérgio Ricardo Strefling, da Universidade Federal de Pelotas, irá compor a mesa temática: Representações da Paidéia Medieval sob a lente da Filosofia, no dia 22/08/2019, na XVIII Jornada de Estudos Antigos e Medievais. Sua apresentação tem o título: "A ESTUDIOSIDADE E O FIM ÚLTIMO DO SER HUMANO EM HUGO DE SÃO VÍTOR E SANTO TOMÁS DE AQUINO".
Resumo: A paidéia medieval retoma o pensamento grego e com a mensagem cristã (encarnação, redenção e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo) constrói o mais elevado pilar da educação que conduz à Sabedoria. A partir das artes liberais do trivium (gramática, retórica e dialética) e do quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) tem-se o método que prepara a civilização ocidental. Neste estudo apresentaremos alguns tópicos da Didascalicon, de Hugo de São Vítor (1096-1141) e da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Hugo de São Vítor, dentre sua volumosa obra, escreve Didascalicon de studi legendi, onde trata sobre a arte e o método de estudar. A virtude da estudiosidade exige humildade necessária para quem deseja aprender, exercício da memória, disciplina de vida e preocupação em ensinar o que se aprendeu. “Existem principalmente duas coisas por meio das quais alguém é conduzido ao conhecimento, a saber, a leitura e a meditação, das quais a leitura vem em primeiro lugar” (Didascalicon, prefácio). Hugo não visava formar pessoas para desempenharem determinadas funções e garantir determinada profissão, mas para atingirem o último grau da Sabedoria, a contemplação, com a qual, segundo ele mesmo: ”tem-se um antegosto nesta vida do que será a recompensa futura das boas obras...a máxima consolação da vida, quem a possui é bem-aventurado” (Didascalicon I,1). O professor de São Vítor visava uma formação integral que proporcionasse uma união cada vez mais profunda com o próprio Deus, fim último do homem. Ora, isso só é possível com a virtude da sabedoria que conduz à vida contemplativa que é a atividade mais essencial ao homem e, portanto, a única que lhe garante a perfeita felicidade, conforme já anunciara Aristóteles (Ética à Nicômaco, X). Hugo lembra-nos que três coisas são necessárias ao estudante: a capacidade natural, o exercício e a disciplina. O aprendizado começa a partir das coisas que são mais conhecidas, e através do conhecimento delas é que se alcançará o conhecimento daquilo que estava oculto. A leitura deve incluir a meditação, a memória, a disciplina e a humildade (Didascalicon III, 9-13). O filósofo conhece somente o significado da palavra, mas o significado das coisas é muito mais superior do que o das palavras, pois o significado destas foi instituído pelo uso, enquanto o daquelas foi fornecido pela natureza. O significado das palavras é a voz do homem, o das coisas é a voz de Deus aos homens. As palavras depois de pronunciadas perecem; as coisas, depois de criadas, subsistem. A voz frágil é a expressão dos sentidos; a coisa é a imagem da razão divina. Deve-se saber que, em qualquer atividade, duas coisas são necessárias, a saber, o trabalho e a razão deste trabalho, que de tal modo estão conectados entre si que um sem o outro se torna inútil ou menos eficaz. A prudência é melhor do que a força, pois quando não podemos mover um grande peso pela força, o conseguimos pela arte. Quem trabalha sem critério evidentemente trabalha, mas não progride e, como que açoitando o ar, dispersa suas forças ao vento. Há três coisas principais que costumam se opor aos estudos dos leitores: a negligência, a imprudência e a má sorte. Quanto ao primeiro destes três obstáculos ao aprendizado, isto é, a negligência, o leitor deve ser repreendido, quanto ao segundo, isto é a imprudência, deve ser instruído, e quanto ao terceiro, isto é, a má sorte, deve ser amparado (Didascalicon V, 5). O fruto da leitura divina é constituído de duas metades, pois ele tanto instrui a mente pela ciência quanto a torna bela pela moral; ensina aquilo que apraz saber e aquilo que convém imitar. Hugo ensina: “Desejai as alegrias da pátria celeste e procurai por quais méritos de justiça se chega a elas. Desejai chegar em algum lugar? Aprendei de que modo se chega ao que procurais” (Didascalicon III). Adquire-se o conhecimento de duas maneiras, a saber, pelo exemplo e pela doutrina. Convém, entretanto que aquele que tiver ingressado nesta via aprenda a se entusiasmar não só pelo brilho da eloquência, mas também pela emulação das virtudes, para que a pompa e o estilo das palavras não o agradem mais que a beleza da verdade. Para o filósofo cristão, a leitura deve ser uma exortação, não uma ocupação, e deve constituir os bons desejos, e não negá-los (Didascalicon V, 6). O método de estudo proposto por Hugo de São Vitor será desenvolvido na escolástica do século XIII, tendo seu ápice nos escritos de Santo Tomás de Aquino e tantos outros autores.
Santo Tomás de Aquino, dentre a sua volumosa obra, destaca-se a Suma Teológica, onde encontramos o roteiro ou itinerário daquilo que é necessário o homem crer, o que deve fazer e os meios para conseguir tal empreendimento. O homem deve crer no que Deus revelou (as verdades da fé), fazer o que Deus mandou (os 10 mandamentos) e auxiliar-se dos meios eficazes da graça (os sete sacramentos). Ao falar sobre o homem e seu agir, Santo Tomás, pergunta sobre o fim último de cada homem e todos os homens. Existe um fim último? Propõe-se o homem, com seus atos, alcançar algum fim último e supremo? Santo Tomás responde que sim, pois se o homem não quisesse e não intentasse o seu fim último, nada poderia nem intentar nem querer, por isso ordena todas as suas ações para a consecução do fim último ou de modo consciente e explícito, ou implicitamente em virtude de certa espécie de instinto racional. Este objeto tão desejado pelo homem é a sua própria felicidade. Acontece que estando em suas mãos escolher entre muitos bens, pode confundir os verdadeiros com os aparentes. Mas em que consiste objetivamente a felicidade do homem? Num bem superior a ele, e o único capaz de acumulá-lo de perfeições (Suma Teológica I-II, 2, 1-8). Este bem não consiste nas riquezas porque as riquezas são coisa inferior ao homem, e incapazes, por si mesmas, de aperfeiçoá-lo. Não consiste nas honras, porque as honras não dão perfeição, já a supõem, sob pena de serem postiças, e se são postiças nada são. Este fim também não consiste na glória e na fama, por serem, neste mundo, coisas frágeis e volúveis. Da mesma forma, não consiste no poder, porque o poder não se dá para o bem próprio, senão para o dos outros e está a mercê do capricho e do espírito de insubordinação. Tão pouco na saúde e na beleza corporal porque são bens inconsistentes e passageiros e, além de tudo, só dão perfeição ao exterior e não ao interior do homem. Tão pouco nos prazeres dos sentidos, porque são grosseiros demais, comparados com os gozos delicados da alma. Logo, o objeto da felicidade consiste nalgum bem que traz perfeição diretamente ao espírito, e este bem só pode ser Deus, Sumo Bem, Soberano e Infinito. Portanto, aqui Tomás nos encaminha para a necessidade da prática das virtudes. Entre elas, destaca-se, a sabedoria. Para atingir a sabedoria exigem-se outras virtudes, a saber, a estudiosidade. À virtude da estudiosidade opõe-se o vício da curiosidade ou dispersão. O studium é um labor, um esforço, sem o qual não se chega ao verdadeiro conhecimento do objeto. Aí se encontra o gaudium, a alegria e o repouso. O estudo implica, principalmente, a aplicação da mente a alguma coisa. Ora, a mente não se aplica a alguma coisa a não ser conhecendo-a. Por isso, primeiro o espírito se aplica a conhecer, depois, àquilo a que é levado pelo conhecimento. Assim, o estudo busca, primeiramente, o conhecimento; e, secundariamente, tudo o mais que, para ser executado, precisa ser dirigido pelo conhecimento (Suma Teológica II-II, 166, 1). As virtudes, porém, têm como objeto próprio a matéria que lhes concerne de forma primordial e principal. A fortaleza, por exemplo, tem como sua matéria os perigos mortais, e a temperança, os prazeres do tato. Portanto, a estudiosidade refere-se propriamente ao conhecimento. Conforme afirmou Aristóteles “todos os homens, naturalmente, desejam saber”. Ora, a moderação desse desejo é própria da estudiosidade. Por conseguinte, a estudiosidade é parte potencial da temperança, como virtude secundária, anexa à principal. Santo Tomás lembra que a prudência é uma virtude que complementa todas as virtudes morais. Por isso, na medida em que todas as virtudes devem ter o conhecimento da prudência, nessa mesma medida a estudiosidade, que se ocupa, propriamente, com o conhecimento, se aplica a todas as virtudes (Suma Teológica, II-II parte, 166,2). O desejo e o esforço no conhecimento da verdade, pode ser reto ou perverso. É perverso, quando alguém que tendendo aplicadamente ao conhecimento da verdade, junta a isso algum elemento mau, como seria aplicar-se ao conhecimento da verdade, para tirar daí motivo de orgulho. Também é perverso, quando o homem deseja conhecer as criaturas, sem se reportar ao fim devido, ou seja, ao conhecimento de Deus. Aqui, Santo Tomás, lembra Santo Agostinho que diz: “ao refletir sobre as criaturas, não devemos praticar uma vã e perecível curiosidade, mas utilizá-las como degraus para o que é imortal e permanente (Suma Teológica, II-II, 167, 1). Deve-se imbricar a curiosidade à estudiosidade para entender o debate permanente sobre a autonomia da pesquisa e sua relação com o fim último. A dispersão e a má compreensão do que seja a estudiosidade leva-nos aos abusos históricos, onde se pode confundir o conhecimento da realidade com meras informações e construções ideológicas.
Palavras-chave: Hugo de São Vítor, Santo Tomás de Aquino, estudiosidade, fim último.
http://lattes.cnpq.br/5956718110743667
Resumo: A paidéia medieval retoma o pensamento grego e com a mensagem cristã (encarnação, redenção e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo) constrói o mais elevado pilar da educação que conduz à Sabedoria. A partir das artes liberais do trivium (gramática, retórica e dialética) e do quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) tem-se o método que prepara a civilização ocidental. Neste estudo apresentaremos alguns tópicos da Didascalicon, de Hugo de São Vítor (1096-1141) e da Suma Teológica, de Santo Tomás de Aquino (1225-1274). Hugo de São Vítor, dentre sua volumosa obra, escreve Didascalicon de studi legendi, onde trata sobre a arte e o método de estudar. A virtude da estudiosidade exige humildade necessária para quem deseja aprender, exercício da memória, disciplina de vida e preocupação em ensinar o que se aprendeu. “Existem principalmente duas coisas por meio das quais alguém é conduzido ao conhecimento, a saber, a leitura e a meditação, das quais a leitura vem em primeiro lugar” (Didascalicon, prefácio). Hugo não visava formar pessoas para desempenharem determinadas funções e garantir determinada profissão, mas para atingirem o último grau da Sabedoria, a contemplação, com a qual, segundo ele mesmo: ”tem-se um antegosto nesta vida do que será a recompensa futura das boas obras...a máxima consolação da vida, quem a possui é bem-aventurado” (Didascalicon I,1). O professor de São Vítor visava uma formação integral que proporcionasse uma união cada vez mais profunda com o próprio Deus, fim último do homem. Ora, isso só é possível com a virtude da sabedoria que conduz à vida contemplativa que é a atividade mais essencial ao homem e, portanto, a única que lhe garante a perfeita felicidade, conforme já anunciara Aristóteles (Ética à Nicômaco, X). Hugo lembra-nos que três coisas são necessárias ao estudante: a capacidade natural, o exercício e a disciplina. O aprendizado começa a partir das coisas que são mais conhecidas, e através do conhecimento delas é que se alcançará o conhecimento daquilo que estava oculto. A leitura deve incluir a meditação, a memória, a disciplina e a humildade (Didascalicon III, 9-13). O filósofo conhece somente o significado da palavra, mas o significado das coisas é muito mais superior do que o das palavras, pois o significado destas foi instituído pelo uso, enquanto o daquelas foi fornecido pela natureza. O significado das palavras é a voz do homem, o das coisas é a voz de Deus aos homens. As palavras depois de pronunciadas perecem; as coisas, depois de criadas, subsistem. A voz frágil é a expressão dos sentidos; a coisa é a imagem da razão divina. Deve-se saber que, em qualquer atividade, duas coisas são necessárias, a saber, o trabalho e a razão deste trabalho, que de tal modo estão conectados entre si que um sem o outro se torna inútil ou menos eficaz. A prudência é melhor do que a força, pois quando não podemos mover um grande peso pela força, o conseguimos pela arte. Quem trabalha sem critério evidentemente trabalha, mas não progride e, como que açoitando o ar, dispersa suas forças ao vento. Há três coisas principais que costumam se opor aos estudos dos leitores: a negligência, a imprudência e a má sorte. Quanto ao primeiro destes três obstáculos ao aprendizado, isto é, a negligência, o leitor deve ser repreendido, quanto ao segundo, isto é a imprudência, deve ser instruído, e quanto ao terceiro, isto é, a má sorte, deve ser amparado (Didascalicon V, 5). O fruto da leitura divina é constituído de duas metades, pois ele tanto instrui a mente pela ciência quanto a torna bela pela moral; ensina aquilo que apraz saber e aquilo que convém imitar. Hugo ensina: “Desejai as alegrias da pátria celeste e procurai por quais méritos de justiça se chega a elas. Desejai chegar em algum lugar? Aprendei de que modo se chega ao que procurais” (Didascalicon III). Adquire-se o conhecimento de duas maneiras, a saber, pelo exemplo e pela doutrina. Convém, entretanto que aquele que tiver ingressado nesta via aprenda a se entusiasmar não só pelo brilho da eloquência, mas também pela emulação das virtudes, para que a pompa e o estilo das palavras não o agradem mais que a beleza da verdade. Para o filósofo cristão, a leitura deve ser uma exortação, não uma ocupação, e deve constituir os bons desejos, e não negá-los (Didascalicon V, 6). O método de estudo proposto por Hugo de São Vitor será desenvolvido na escolástica do século XIII, tendo seu ápice nos escritos de Santo Tomás de Aquino e tantos outros autores.
Santo Tomás de Aquino, dentre a sua volumosa obra, destaca-se a Suma Teológica, onde encontramos o roteiro ou itinerário daquilo que é necessário o homem crer, o que deve fazer e os meios para conseguir tal empreendimento. O homem deve crer no que Deus revelou (as verdades da fé), fazer o que Deus mandou (os 10 mandamentos) e auxiliar-se dos meios eficazes da graça (os sete sacramentos). Ao falar sobre o homem e seu agir, Santo Tomás, pergunta sobre o fim último de cada homem e todos os homens. Existe um fim último? Propõe-se o homem, com seus atos, alcançar algum fim último e supremo? Santo Tomás responde que sim, pois se o homem não quisesse e não intentasse o seu fim último, nada poderia nem intentar nem querer, por isso ordena todas as suas ações para a consecução do fim último ou de modo consciente e explícito, ou implicitamente em virtude de certa espécie de instinto racional. Este objeto tão desejado pelo homem é a sua própria felicidade. Acontece que estando em suas mãos escolher entre muitos bens, pode confundir os verdadeiros com os aparentes. Mas em que consiste objetivamente a felicidade do homem? Num bem superior a ele, e o único capaz de acumulá-lo de perfeições (Suma Teológica I-II, 2, 1-8). Este bem não consiste nas riquezas porque as riquezas são coisa inferior ao homem, e incapazes, por si mesmas, de aperfeiçoá-lo. Não consiste nas honras, porque as honras não dão perfeição, já a supõem, sob pena de serem postiças, e se são postiças nada são. Este fim também não consiste na glória e na fama, por serem, neste mundo, coisas frágeis e volúveis. Da mesma forma, não consiste no poder, porque o poder não se dá para o bem próprio, senão para o dos outros e está a mercê do capricho e do espírito de insubordinação. Tão pouco na saúde e na beleza corporal porque são bens inconsistentes e passageiros e, além de tudo, só dão perfeição ao exterior e não ao interior do homem. Tão pouco nos prazeres dos sentidos, porque são grosseiros demais, comparados com os gozos delicados da alma. Logo, o objeto da felicidade consiste nalgum bem que traz perfeição diretamente ao espírito, e este bem só pode ser Deus, Sumo Bem, Soberano e Infinito. Portanto, aqui Tomás nos encaminha para a necessidade da prática das virtudes. Entre elas, destaca-se, a sabedoria. Para atingir a sabedoria exigem-se outras virtudes, a saber, a estudiosidade. À virtude da estudiosidade opõe-se o vício da curiosidade ou dispersão. O studium é um labor, um esforço, sem o qual não se chega ao verdadeiro conhecimento do objeto. Aí se encontra o gaudium, a alegria e o repouso. O estudo implica, principalmente, a aplicação da mente a alguma coisa. Ora, a mente não se aplica a alguma coisa a não ser conhecendo-a. Por isso, primeiro o espírito se aplica a conhecer, depois, àquilo a que é levado pelo conhecimento. Assim, o estudo busca, primeiramente, o conhecimento; e, secundariamente, tudo o mais que, para ser executado, precisa ser dirigido pelo conhecimento (Suma Teológica II-II, 166, 1). As virtudes, porém, têm como objeto próprio a matéria que lhes concerne de forma primordial e principal. A fortaleza, por exemplo, tem como sua matéria os perigos mortais, e a temperança, os prazeres do tato. Portanto, a estudiosidade refere-se propriamente ao conhecimento. Conforme afirmou Aristóteles “todos os homens, naturalmente, desejam saber”. Ora, a moderação desse desejo é própria da estudiosidade. Por conseguinte, a estudiosidade é parte potencial da temperança, como virtude secundária, anexa à principal. Santo Tomás lembra que a prudência é uma virtude que complementa todas as virtudes morais. Por isso, na medida em que todas as virtudes devem ter o conhecimento da prudência, nessa mesma medida a estudiosidade, que se ocupa, propriamente, com o conhecimento, se aplica a todas as virtudes (Suma Teológica, II-II parte, 166,2). O desejo e o esforço no conhecimento da verdade, pode ser reto ou perverso. É perverso, quando alguém que tendendo aplicadamente ao conhecimento da verdade, junta a isso algum elemento mau, como seria aplicar-se ao conhecimento da verdade, para tirar daí motivo de orgulho. Também é perverso, quando o homem deseja conhecer as criaturas, sem se reportar ao fim devido, ou seja, ao conhecimento de Deus. Aqui, Santo Tomás, lembra Santo Agostinho que diz: “ao refletir sobre as criaturas, não devemos praticar uma vã e perecível curiosidade, mas utilizá-las como degraus para o que é imortal e permanente (Suma Teológica, II-II, 167, 1). Deve-se imbricar a curiosidade à estudiosidade para entender o debate permanente sobre a autonomia da pesquisa e sua relação com o fim último. A dispersão e a má compreensão do que seja a estudiosidade leva-nos aos abusos históricos, onde se pode confundir o conhecimento da realidade com meras informações e construções ideológicas.
Palavras-chave: Hugo de São Vítor, Santo Tomás de Aquino, estudiosidade, fim último.
http://lattes.cnpq.br/5956718110743667
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